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6 de Abril de 2020

Garotos de recados dos grandes escritórios

Marcelo Barreto, Bacharel em Direito
Publicado por Marcelo Barreto
há 2 anos

Com o mercado jurídico cada vez mais saturado, tem sido bastante comum bacharéis em direito recém aprovados no Exame de Ordem e até mesmo advogados experientes aderirem a condição de Advogados audiencistas.

O advogado audiencista nada mais é que um profissional que se dedica apenas a fazer audiências, tal como em ações contra telefônicas, bancos, planos de saúde e demais empresas que lidam com uma multiplicidade de processos em várias partes do Brasil.

A prática funciona da seguinte forma: as empresas contratam os grandes escritórios do país e estes, por sua vez, contratam escritórios locais, substabelecendo o mandato a estes, que por sua vez, substabelecem os advogados audiencistas pagando, também, os prepostos que recebem por cada audiência realizada. Os advogados audiencistas são recrutados por meio sites, e-mail, aplicativos ou em alguns casos por indicações de colegas.

O mencionado profissional costuma cobrar em média de R$ 20 à R$ 100 por audiência. Há alguns profissionais que possuem contratos fixos com escritórios onde faturam em média R$ 1.200,00 por mês.

Não vou questionar aqui a suposta exploração dos grandes escritórios aos profissionais que enfrentam dificuldades de inserção no mercado, e sim a falta de autonomia que os advogados audiencistas enfrentam em sua atuação.

O advogado do "escritório grande" envia a incial, a contestação e mais algumas instruções para o audiencista através do Whatsapp. Este por sua vez, vai pra audiência e com o seu aparelho celular repete igual a um papagaio todas as instruções que lhe foram passadas: Evento 54, 15 Laudas, Pedidos no Bojo... Enfim, toda aquela ladainha dos juizados especiais. Para quem é leigo, passa a impressão de que qualquer um pode ser advogado, é só ler a tela do celular.

Com isso, o advogado fica impedido de mostrar todo seu potencial, e habilidades, passando apenas a ser um mero garoto de recados dos grandes escritórios. Em fases posteriores do processo, nada do que este profissional fez é levado em consideração.

Chego a conclusão de que 5 anos de árduas sessões de estudo, estágios e muitas expectativas servem apenas para vestir um terno, ler a tela do celular e receber uma esmola como pagamento. Se o celular descarregar, o que o nobre causídico irá fazer?

Pobre Advocacia...

68 Comentários

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Muito oportuno seu artigo, e valho-me da oportunidade de ser o primeiro a comentá-lo. A realidade narrada, embora triste, não padece de reparo, uma vez que, em um mercado extremamente competitivo, não sobra muito espaço para manobras corporativas, senão aquelas já conhecidas em início de carreira. E aos jovens que hoje desabam das salas de aulas das universidades que também são grandes corporações e que visam apenas o lucro sem preocupar-se com o resultado acadêmico, acabam tomando um verdadeiro choque de realidade de um mercado em franco crescimento e cuja disputa selvagem por espaço torna-se cada vez mais aguerrida. Esperemos que essa realidade, um dia, mude para assegurar que a situação aqui retratada seja repelida, ou, pelo menos, atenuada ao seu próprio limite. Espero ter contribuído positivamente. continuar lendo

Muito boa a reflexão. A realidade agora é essa, e a tendência é piorar, pois a cada ano entram no mercado uma baciada de advogados. A Justiça está mais morosa e os honorários achatando. Quem não buscar se diferenciar não vai conseguir sobreviver. Juizado é uma lástima, se puder fuja deste órgão, não serve mais para a finalidade que foi criado. O problema também é de mentalidade, há muito glamour na época da escola, faculdade etc. Em geral os estudantes não procuram e também não são estimulados sobre conhecimentos de negócios e marketing, e ficam esperando que alguém lhe dê um bom emprego e um alto salário continuar lendo

Muito bem colocado, Dr Vinicius Pereira Ribeiro. Tenho 3 filhos, e cada um optou por algo de suas escolhas. Um optou pela Academia da PM SP, uma filha Faculdade de Direito, e a outra preferiu casar-se pra "fugir" da escola. O único que teve sucesso foi o filho (hoje é Major PM). A definição da profissão de um jovem, nem sempre é sucesso, principalmente quando ele não procura se informar, sobre o "mercado de trabalho", indo simplesmente pelo "impulso", um "sonho" ou pior; por imposição dos pais. O senhor, em poucas palavras, disse "tudo" a respeito, principalmente de sua área de atuação. continuar lendo

Prezado Marcelo

Verdade nua e crua dos fatos.
A nova tabela de honorários advocatícios de 2018, item 18, prevê honorários para diligências para advogados correspondentes.
Infelizmente grandes escritórios, sabedores da situação, e para se estabelecerem acima dos mais fracos, ficam oferecendo esmolas.
Agora, só tem oferta porque há procura.
Por mais difícil que seja, a minha situação não difere dos demais colegas do país, mas nós que militamos na região nordeste sofremos bem mais com a situação miserável que se encontra os trabalhadores brasileiros.
O contingente de advogados nordestinos é proporcional as demais regiões mais afortunadas onde os salários, embora o custo de vida seja mais acrescido, ofereça condições para no mínimo custear uma consulta, o que acredito que boa parte dos profissionais aqui da nossa região a pratiquem.
Trabalhador mau tem condições de se manter quem dirá pagar uma consulta e muito menos honorários, como se não bastasse, ainda temos que lidar com profissionais ínfimos que não assistiram nenhuma aula de ética na faculdade, então meu caro, fica difícil mesmo.
Estou labutando na construção de um homi office, diminuir custas e sobreviver, mas NÃO aceito esmolas, quando me ligam oferecendo trabalho com as tabelas de esmolas, peço para retornarem a ligação com a devida tabela da OAB na seção onde consta honorários para correspondentes, boa parte não retornam, mas faço valer meus 5 anos de sacrifícios na faculdade, simples assim. continuar lendo

Dr, o trabalho que vai ter para abrir um home office é o mesmo que terá para montar um espaço coworking, com a vantagem de ter o seu local de trabalho e permitir que outros profissionais também o utilizem, além de ser uma fonte de renda. Pense nisso como uma inovação! continuar lendo

Pensei meu nobre, porém na minha região, não há empreendedores que abracem esta ideia, uma pena. continuar lendo

OAB neles. Sua posição é inatacável. Contudo, muuuuuitos coleguinhas aceitam e acham que estão exercendo a profissão. continuar lendo

Mas, quem deve empreender é vc, e não as pessoas da sua região. Concorda? Ofereça um bom espaço e outros advogados (se for um coworking jurídico) virão até ele! continuar lendo

Parabéns pelo artigo Dr. Marcelo, retrata bem o cenário vivido pela advocacia jovem. continuar lendo